Número de candidatos a deputado ligados a igrejas cai 35% em 4 anos em PE; presença de militares aumenta
23/09/2026
(Foto: Reprodução) Pesquisador analisa dados sobre queda no número de candidatos religiosos em PE
Com a proximidade do 1º turno, a corrida pelas vagas de deputado estadual e federal se intensifica conforme o eleitorado define o voto. Em Pernambuco, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que o número de candidaturas proporcionais de nomes ligados a religiões caiu 35% nos últimos quatro anos (veja vídeo acima).
Os pernambucanos vão eleger 49 deputados estaduais para a Assembleia Legislativa e outros 25 parlamentares para preencher a bancada do estado na Câmara dos Deputados. Considerada mais complexa por nem sempre os eleitos serem os mais votados, a eleição proporcional não costuma protagonizar o dia a dia do eleitor, geralmente mais atento às disputas para governador e presidente.
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Para o cientista político Bhreno Vieira, a escolha dos deputados costuma ser a última encarada pelos eleitores.
"A escolha para deputado ainda costuma ser um voto menos lembrado e frequentemente definido mais perto da eleição. Em comparação com as disputas para presidente e governador, as eleições legislativas envolvem centenas de candidaturas e oferecem menos informação sobre cada concorrente. Isso não significa que o voto é aleatório, mas que o eleitor recorre a atalhos: um nome conhecido, uma profissão, a indicação de uma liderança local, a identificação partidária ou religiosa e a relação do candidato com seu município", explica.
Um levantamento feito pelo g1 com base nos dados da plataforma Divulgacand, do TSE, aponta um recuo de 35% entre os candidatos que se utilizam de nomenclaturas religiosas, como pastor, presbítero e missionário, no nome de urna. Outros grupos, como os ligados à saúde e educação, também recuaram, mas não no mesmo ritmo (veja tabela abaixo).
Nomes de urna dos candidatos a deputado em Pernambuco
As eleições de 2026 estão com menos candidatos do que 2022. De acordo com o TSE, o número de candidaturas a deputado estadual e federal caíram, respectivamente, 32% e 26% nesse intervalo. Em Pernambuco, também houve redução no total de candidaturas, mas de forma mais modesta: queda de 15% de candidatos a estadual e de 17% nas candidaturas a federal no estado.
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Mesmo com menos concorrentes no geral, o declínio das candidaturas com nomes religiosos ficou acima da média. O doutor em ciência da religião Liniker Xavier acredita que o perfil da campanha deste ano está diferente da disputa de 2022.
"A eleição de 2022 ocorreu em um ambiente de polarização muito intensa, no qual a identidade religiosa, especialmente a evangélica, foi utilizada de maneira bastante explícita como instrumento de mobilização política. Em 2026, a religião continua presente na disputa, mas alguns candidatos podem ter optado por nomes mais profissionais ou comunitários, sem abandonar seus vínculos com igrejas e lideranças religiosas. Também pode existir uma concentração maior do apoio das igrejas em candidaturas consideradas competitivas, em vez de uma multiplicação de nomes que exibem títulos eclesiásticos", diz.
Outro ponto que pode ter afetado as candidaturas de aspectos expressamente religiosos é a ligação com uma corrente mais radical da política.
Nos últimos anos, uma parte importante das lideranças evangélicas vinculou sua imagem de maneira muito estreita a determinados movimentos conservadores. Essa aliança produziu mobilização, votos, mandatos e acesso ao poder, mas também gerou custos. A radicalização política e as sucessivas controvérsias dificultaram o diálogo com evangélicos que não se reconhecem nesse projeto e com eleitores de fora das igrejas.
Saúde, educação e militares
Urna eletrônica para votação nas eleições brasileiras
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Os indicadores sobre os nomes que vão às urnas para deputado mostram que outros grupos também perderam espaço, seguindo a queda geral no número de candidaturas. Entre os que colocam nomenclaturas ligadas à saúde, como enfermeiro e médico, a redução foi de 17% desde 2022. Na educação, candidaturas com nome de professor ou ligadas ao setor diminuíram 12% no período.
O cientista político Bhreno Vieira avalia que o distanciamento da pandemia de Covid-19, que teve seu ápice entre 2020 e 2022, explica o menor apelo na questão de candidatos médicos, enfermeiros, técnicos e agentes de saúde.
"A saúde tornou-se um tema predominante no debate público e, como efeito da atenção ao tema, ocasionou em candidaturas que surfaram nessa exposição temática, encontrando um esgotamento agora no pleito de 2026", disse.
Já em relação aos militares, o movimento foi de leve crescimento de 2% no comparativo com a última eleição geral. A vinculação a denominações como coronel, tenente, capitão e general são agora o grupo que tem mais presença nos nomes nas urnas, com 47 no total dos candidatos a deputado em Pernambuco.
Para Bhreno Vieira, o debate em torno da segurança pública e a ascensão das candidaturas de militares após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 mantêm a influência do grupo ligado às Forças Armadas.
"Candidatos ligados às polícias e às Forças Armadas tendem a ser percebidos como mais preparados para combater a corrupção, especialmente entre eleitores conservadores. Isso ajuda a explicar por que essa identidade continua sendo eleitoralmente explorada, sobretudo depois de sua maior politização nos últimos ciclos eleitorais", afirma.
A estratégia de levar para o nome de campanha do candidato uma denominação específica pode ser fundamental em uma eleição com número grande de concorrentes, como é a disputa por vagas no parlamento.
"Em campanhas cada vez mais personalizadas, o nome de urna funciona como uma biografia comprimida. Em poucas palavras, o candidato procura dizer ao eleitor quem é e que tipo de vínculo pretende representar", explica Liniker Xavier.
Contudo, no caso dos religiosos, não é um nome que será suficiente para garantir o que se convenciona a chamar de "voto religioso".
"As identidades religiosas não chegam à urna em condições de igualdade. Algumas podem ser convertidas mais facilmente em prestígio e voto e outras ainda carregam o risco da discriminação. Existe presença política, existe mobilização e existe disputa por direitos, mas essa identidade ainda encontra dificuldades para se apresentar publicamente na urna”, diz.
Histórico de eleições
Desde 1982, ano em que os pernambucanos voltaram a escolher de forma direta os governadores do estado, já foram realizadas 11 eleições. Em todas elas, os eleitores tiveram que escolher um deputado estadual e um deputado federal. Os perfis dos mais votados tiveram mudança considerável nas últimas décadas. Veja abaixo:
Deputados estaduais mais votados em Pernambuco
1982: Manoel Ramos de Almeida (PDS) - 64.514 votos
1986: João Ramos Coelho (PDT) - 77.924 votos
1990: Osvaldo Rabelo (PFL) - 37.585 votos
1994: João Paulo (PT) - 48.892 votos
1998: João Paulo (PT) - 50.833 votos
2002: Raul Henry (PMDB) - 117.471 votos
2006: Pastor Cleiton Collins (PSC) - 89.585 votos
2010: Pastor Cleiton Collins (PSC) - 137.157 votos
2014: Pastor Cleiton Collins (PP) - 216.874 votos
2018: Delegada Gleide Ângelo (PSB) - 412.636 votos
2022: Pastor Júnior Tércio (PP) - 183.735 votos
Deputados federais mais votados em Pernambuco
1982: Miguel Arraes (PMDB) - 191.471 votos
1986: Joaquim Francisco (PFL) - 142.359 votos
1990: Miguel Arraes (PSB) - 339.197 votos
1994: Roberto Magalhães (PFL) - 229.483 votos
1998: Eduardo Campos (PSB) - 173.657 votos
2002: Carlos Eduardo Cadoca (PMDB) - 211.864 votos
2006: Armando Monteiro Neto (PTB) - 205.212 votos
2010: Ana Arraes (PSB) - 387.581 votos
2014: Eduardo da Fonte (PP) - 283.567 votos
2018: João Campos (PSB) - 460.387 votos
2022: André Ferreira (PL) - 273.267 votos
Em 44 anos, a corrida pelas vagas na Assembleia Legislativa do estado passou a ser liderada por candidatos do campo evangélico a partir de 2006.
Já na disputa pela Câmara dos Deputados, o equilíbrio é maior, no revezamento de partidos entre direita e esquerda. Na visão do cientista político Bhreno Vieira, o eleitor pernambucano costuma ter um comportamento mais personalista no voto para deputado.
"Em 2022, observando os votos válidos, apenas 3,9% dos votos para deputado federal em Pernambuco foram dados diretamente às legendas. Portanto, mais de 96% foram direcionados a candidatos específicos, mostrando a força do voto personalizado", explica.
O professor também aponta a força do componente regional na escolha dos parlamentares e as parcerias feitas a partir disso.
"Embora sejam eleitos pelos votos recebidos em todo o estado, muitos deputados constroem bases concentradas em municípios ou regiões. No interior, prefeitos, vereadores e lideranças locais têm papel importante na apresentação dos candidatos. As chamadas 'dobradinhas' entre candidatos a deputado estadual e federal também ajudam a organizar territorialmente a campanha", afirma.
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